No final do século passado, internet era luxo. Antes da virada dos anos 2000, ainda estávamos no acesso discado com os irritantes modems conectando à velocidades como 14.400 ou incríveis 28.800 bps. Seja lá o que isso signifique. Acabava de ser lançado aquele iMac coloridinho em formato de bolha, e o leitor de CD/DVD embutido era tão raro quanto inútil.  Laptops ditos portáteis na verdade eram halteres disfarçados de retângulos desajeitados. O Bluetooth ainda engatinhava e o acesso à internet não só não era grátis como não era possível sem uma série de aparelhos caros, cabos azuis, cartões de acesso, instalação de softwares e por aí vai. 

Mas como alguém que já trabalhava com tecnologia e se conectava à internet com regularidade, fui de férias para a Austrália. O ano era 1999, e a curiosidade de conhecer este continente, essa ilha gigante no meio do nada, cheia de nada no meio, do outro lado do mundo, era imensa. Munido com um desses laptops de chumbo, antecedência e sorte, me hospedei em um ótimo hotel, talvez o melhor da cidade na ocasião, por um preço muito camarada. Lembrando que o dólar americano e o real não tinham grandes abismos de diferença, chegando bem próximo do saudoso 2x1. Hoje seria um sonho, mas naquela época, bem, também era um sonho. 

Algo como R$150 ou R$200 a diária. Com café da manhã. Super possível,  para não dizer uma barganha. Até o dia em que precisei por algum motivo conectar meu notebook à internet do quarto. Sim, aquele moderno hotel já oferecia àquela altura essa possibilidade para seus modernos hóspedes. O normal era ainda haver um ou dois PCs disponíveis no Business Center do hotel, à disposição dos hóspedes. Ou melhor, disponíveis, mas pagos por hora. 

Achei por bem pedir para liberar a conexão no quarto e aí verificar e-mails e  entrar no ICQ (o Whatsapp da época). Claro, sim senhor — disse o simpático funcionário da recepção por telefone, ao me passar uma senha depois de ter  criado um número de usuário. A conexão, claro, era ruim já naquela época, imagine para os parâmetros de hoje. Depois de um par de dias com alguma  dificuldade e instabilidade, voltei ao front desk perguntando se poderia conseguir uma conexão melhor do que aquela. Só então fui informado que  aquela conexão era a básica, a mais barata. Uma surpresa até porque ninguém me avisou que seria paga (havia um panfleto ao lado do telefone, que eu não li). 

Partindo do princípio que não deveria ser muito caro, pedi logo para que liberasse o acesso mais veloz possível. O básico e lento era algo como R$30 por dia, um acréscimo de 20% no valor da diária. Mas o esperto aqui depois de usar por mais um par de dias o tal acesso deluxe, bem mais rápido, até parecido com a minha conexão de casa, e permanecer ligado o tempo todo  mandando imagens, e-mails ou mensagens, descobriu que aquela internet de  ouro (ou platina) tinha o módico valor de 5 dólares. Por minuto. 

Basta dizer que paguei uns 1200 dinheiros a mais do que havia planejado nas tais quatro horas em que fiquei despreocupadamente online, conectado e finalmente, falido. Na época daria para comprar uma câmera fotográfica das boas. Ou ficar mais uma semana no hotel. Ou pagar um upgrade para classe executiva, no vôo de volta. Ou seja. 

Olhando para trás, vejo o quanto evoluímos nesse quase um quarto de século, com hotéis de todas as categorias oferecendo internet mais barata,  depois Wi-Fi pago, Wi-Fi cortesia, protegido por senha. Hoje o normal (e obrigatório) é Wi-Fi grátis, automático, livre em todo lugar. Imagino que água  potável um dia também foi assim. Ou ar condicionado. Ou TV a cabo. 

Portanto, fica a lição. A tecnologia evolui rápido e inexoravelmente. E mais que isso, sempre pergunte quanto custam as coisas antes de usá-las. O que hoje pode ser vendido como produto de luxo, amanhã pode virar serviço. E básico.

- Guime Davidson